O legado de Ivo Pitanguy
Célebre nome da Medicina mundial, Ivo Hélcio Jardim de Campos Pitanguy foi uma pessoa com uma história muito interessante. Filho de médico, o jovem estudante de Medicina em Belo Horizonte transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso ao tempo em que servia no 1º Regimento de Cavalaria de Guardas (1º RCG), oficialmente denominado como Dragões da Independência. Escolheu ser cirurgião plástico, fato raro à época. Fez pós-graduações nos Estados Unidos, França e Reino Unido e através do seu trabalho tornou o Brasil referência mundial em cirurgia plástica e o seu principal expoente. Professor catedrático da PUC Rio de Janeiro, membro da Academia Nacional de Medicina e da Academia Brasileira de Letras, Pitanguy também foi enredo da Escola de Samba Caprichosos de Pilares no carnaval de 1999. Ao término do desfile, o médico que atendeu algumas das mulheres mais ricas e famosas do mundo foi ovacionado pelo povo nas arquibancadas da Marquês de Sapucaí. Reconhecimento ao cirurgião que salvou muitas vidas da população carioca de baixa renda e vítimas de deformidades ao atender gratuitamente na Santa Casa de Misericórdia.
Neste dia 5 de julho, data do aniversário de nascimento do Dr. Ivo, trazemos o relato da filha e do neto, também médicos sobre a convivência e a influência que receberam do Michelangelo do bisturi como a revista alemã o definiu.
Gisela Pitanguy Chamma, filha
A tradição médica da nossa família teve início com meu avô, Antônio de Campos Pitanguy, cirurgião-geral em Belo Horizonte, que foi uma grande inspiração para meu pai.
Meu pai costumava recordar uma frase que ouvira de seu pai e que carregou consigo por toda a vida: “Independentemente de qualquer especialidade, antes de tudo, seja um bom médico.”
Acredito que esse princípio norteou toda a sua trajetória como médico, cirurgião e professor e se traduz no legado que deixou não apenas à nossa família, mas também às inúmeras gerações de discípulos que formou.
Como filha, tive o privilégio, ainda na juventude, de acompanhar parte da trajetória de meu pai, já consagrado como um dos grandes nomes da cirurgia plástica reparadora e estética. Pude testemunhar de perto sua dedicação incansável aos pacientes, tanto em sua clínica particular quanto em sua enfermaria na Santa Casa de Misericórdia.
Essa vivência, sem dúvida, inspirou-me a seguir a Medicina e, posteriormente, a trabalhar ao seu lado em sua clínica por mais de três décadas.
Hoje, meus filhos — Antonio Paulo, cirurgião plástico; Pedro, neurologista; e Rafael, cardiologista — representam a quarta geração de médicos da nossa família.
Rafael Pitanguy Chamma, neto
Crescer sob a influência do meu avô foi uma das maiores sortes que já tive. Desde muito cedo, ver seu amor e sua dedicação ao trabalho foi algo que sempre admirei. A intensidade desse sentimento era tanta que, pouco antes de falecer, foi publicada uma grande matéria em uma revista na qual ele dizia não se imaginar parando de trabalhar, apesar das limitações físicas que já vinham se impondo.
Sempre tive muito orgulho de ser seu neto, muito orgulho de sua dedicação, de sua cultura e do homem extraordinário que foi.
Quando decidi seguir a Cardiologia, lembro-me das longas conversas em que ele reiterava que, antes de qualquer especialidade, o mais importante era ser um bom médico e exercer a Medicina com a maior dedicação possível.
Histórias marcantes, como seu trabalho com os queimados do Circo de Niterói, em 1961, e as personalidades que operou sempre fizeram parte da minha infância e ajudaram a construir a admiração que tenho por sua trajetória.
Entretanto, talvez o maior orgulho e inspiração que sinto sejam as inúmeras pessoas que já me pararam na rua, independentemente de classe social, contando histórias suas ou de familiares que foram operados por ele na Santa Casa de Misericórdia. São relatos que revelam o médico extraordinário que foi, mas, sobretudo, o homem que nunca perdeu a humanidade.
Décadas depois de ele ter seguido para Londres para se aperfeiçoar na cirurgia plástica, e após eu ter me formado pela UFRJ assim como ele, surgiu a oportunidade de realizar parte da minha formação na mesma cidade. Não encaro isso como uma coincidência, mas como a chance de seguir inspirado por alguém que sempre me ensinou que, antes de qualquer especialidade, o mais importante era ser um bom médico.
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