Saudade: Sérgio Cabral

 

No musical Sassaricando — E o Rio inventou a marchinha, uma das canções diz que "O Rio amanheceu cantando. Toda a cidade amanheceu em flor". Mesmo sendo 14 de julho, um domingo de inverno, não foi possível ao Rio amanhecer cantarolando o que Carmen Miranda imortalizou. A notícia que Sérgio de Oliveira Cabral Santos encerrou, aos 87 anos, a bela carreira de jornalista, compositor, escritor, pesquisador, crítico e produtor musical causou o abalo que somente um personagem com a grande simpatia, reconhecida competência e insuperável trajetória poderia causar. Conforme revelado pelo ex-governador Sérgio Cabral, o pai estava internado há 3 meses na Clínica São Vicente, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Sérgio foi uma figura especial. Com sangue sergipano, o carioca nascido em 28 de maio de 1937 no subúrbio de Cavalcante, foi de jornalista que cobria a política diplomática brasileira para o Jornal do Brasil, passando pelas sátiras políticas do Pasquim, a autor de biografias dos maiores nomes da Música Brasileira: Pixinguinha, Tom Jobim, Almirante, Ari Barroso, Elizeth Cardoso, Nara Leão e Grande Otelo. Revelou ao Brasil a grandiosidade de Cartola após tê-lo encontrado em difícil momento da vida de um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira. Escreveu obras antológicas sobre as Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Durante muitos anos foi comentarista do desfile das Escolas de Samba para as TV Globo e Manchete. Era apaixonado pela Portela e pela Em Cima da Hora, a escola de Cavalcante que o homenageou em 1997 com o enredo Sérgio Cabral, a cara do Rio..

“Meu trabalho é com o samba. Eu trabalho e aprecio. Com o samba, com a música popular, com o futebol. Com as coisas mais cariocas”, assim se definiu em entrevista nos anos 1980. Ricardo Cravo Albin, outro apaixonado por MPB e pelas Escolas de Samba, faz o acréscimo: "Cabral foi o rei da simpatia, e podia fazer inimigos se abraçarem em segundos".

Torcedor e benemérito da Cruz de Malta, foi o autor do Livro Oficial do Centenário do Clube de Regatas Vasco da Gama.

No velório, realizado na segunda-feira, 15, na Sede Náutica do Vasco, defronte à Lagoa Rodrigo de Freitas, a música rendeu homenagens a Sérgio Cabral. Era o gurufim, a forma como os sambistas realizam suas cerimônias fúnebres. Com música. Fazendo jus ao parceiro de Rildo Hora nas composições "Janelas Azuis", "Visgo de Jaca", "Velha-Guarda da Portela" e "Os Meninos da Mangueira". 

Muitos aplausos foram ouvidos. Os nossos continuam presentes em nossa memória da boa acolhida e agradáveis conversas que tivemos no apartamento situado à ladeira da General Barbosa Lima, a pacata rua de Copacabana, onde o querido Sérgio viveu grande parte da vida.


 
Sérgio Cabral em julho de 2023 em evento para o filho
(Foto Diego Mendes)

 
Aydano André Motta, Paulo de Tarso, Sérgio Cabral e Luis Carlos Magalhães





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